E nesse confronto que nada tem de amistoso, ele jamais quis driblar os protocolos do funcionalismo público. Desde que resolveu reformar uma casa antiga para abrigar o seu estabelecimento de sabores intercontinentais, vive uma turnê de papéis assinados, cartórios e carimbos com tantas rodadas que parece um campeonato de resistência. É tanto pagamento de taxa, tanta restrição, tanta novidade para um baiano que morou quase 30 anos na Europa que ele pensou em desistir. “Eu precisei fazer uma decoração no muro e a Sucom disse que eu estava ampliando o terreno. Isso deixou minha obra parada por 27 dias e eu tendo que pagar aos funcionários”, calcula.
“Uma vez, precisei abrir um pequeno restaurante em Bordeaux (capital da Gironda francesa). Fui numa tarde na Câmara do Comércio, assinei alguns formulários, paguei um euro e saí de lá com a autorização”, compara. E Artur, um baiano de voz tranqüila, nascido em Contendas do Sincorá, região da Chapada Diamantina, não fala nada disso com empáfia ou arrogância, apenas com um ressentimento latino. Mais do que cansado, ele se revela constrangido e frustrado por ter tido a idéia do empreendimento. Só que Artur, como diz o slogan da propaganda, lembra que é brasileiro e não desiste nunca.
Aliás, esse pensamento ufanista é o ingrediente psicológico na delegação do Brasil, que Artur costuma acompanhar desde 1992. O uniforme dele de cozinheiro, todo branco, aproveitou para emoldurar, cheio de assinaturas de celebridades dos gramados, e transformar em decoração do restaurante. Já o uniforme canarinho, camisa 8, com os autógrafos dos craques é uma raridade, de valor inestimável. “Não colocaria em leilão, jamais ousaria vender porque tenho muito respeito por esses meninos”. E chamar os ídolos pentacampeões de meninos é uma coisa natural para ele que aprendeu os gostos de cada um.
Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, sempre pede uma sobremesa chamada panacota, um tipo de sorvete que Artur classifica como “simplérrimo”, feito com creme de leite, baunilha e açúcar. Já o velho Zagallo, o único “tetracampeão do mundo”, como ele mesmo gosta de enaltecer, só comia um pedaço de bife do tamanho de um punho fechado com duas colheres de arroz branco. A dieta para faquir do coordenador técnico chegava a assustar o cozinheiro na última Copa da Alemanha. “Eu pensava que ele poderia bater as botas no meio do campeonato”, confidencia Artur, quando realmente o aspecto dele era de quem já estava no segundo tempo da prorrogação da existência.
Grande presente
O baiano emoldurou a camisa que ganhou na Copa das Confederações de 2003, porque a de 2005, com assinaturas dos campeões Dida, Robinho e Adriano, ele presenteou à mãe. “Foi o grande presente que eles me deram porque, além de tudo, ganharam da Argentina”, vibra, sem esquecer uma rivalidade local. Artur é daqueles que consideram todos os jogadores “gente boa”, mas nutre a admiração peculiar pelo capitão Cafu. “É um dos caras mais gentis, cultos e inteligentes que eu já vi”, elogia.
Quando a seleção viaja, torna-se uma espécie de marmiteiro oficial do grupo. Sai pelos aeroportos europeus com uma bagagem cheia de farinha, bacalhau, carne seca, tudo para a alimentação adequada dos atletas. Nunca teve problema de vistoria com a comida inusitada para os padrões saxônicos, mas, em tempos de terrorismo internacional, já foi impedido de embarcar o conjunto de facas especiais que usa para preparar as carnes. Seria o mesmo que não deixar Picasso viajar com seus pincéis e tintas ou impedir Eric Clapton de decolar com sua guitarra. “Alguns hotéis são de nível e oferecem facas de primeira. Em outros, parece que eles escolhem as mais cegas e ruins”, desabona.
É até saboroso descobrir que o homem que já serviu os banquetes mais sofisticados para os monarcas da bola e reis da política e das artes ainda hoje tenta o toque especial de sabor de uma quituteira analfabeta. “Ainda hoje, eu procuro cozinhar como tia Mariquinha. Nunca consegui”, exagera ele, falando sobre a gordinha, atarracada de 1,50m, que mal sabia escrever o próprio nome e morava na vizinha cidade de Marcionílio Souza. “Ela pegava uma simples batata e fazia miséria”, suspira.
De Contendas do Sincorá, ainda criança, Artur mudou para Iaçu com a mãe e depois para Santo Amaro. Com 15 anos, foi morar em São Paulo e começou a fazer o curso de confeitaria no Senac. Trabalhou como ajudante de confeiteiro em um bufê paulista e depois já conseguia fazer algumas receitas na cozinha.
Em 1980, resolveu passar as férias em Paris. Soube por um amigo que o embaixador brasileiro precisava de um jantar para comemorar o aniversário. O cardápio agradou tanto que foi indicado para um jantar ao embaixador mexicano. Aí o banquete encantou os paladares, até que terminou contratado como mordomo da embaixada do México na França. Promovido a cozinheiro, passou dez anos em Paris e outros quatro anos e meio no Marrocos, a serviço da diplomacia internacional.
Nessa epopéia da Chapada Diamantina ao Champs Elysée, agradou aos paladares da mulher do ex-presidente François Mitterrand, ao primeiro-ministro Lionel Jospin e a artistas do cinema internacional como Charlotte Rampling e Kristin Scott Thomas.
Importar para a Bahia as receitas de padrão internacional contou com a parceria do sócio Claude, o francês que mudou para Salvador e faz um misto de vibração e muxoxo ao falar sobre o clima de Verão perene na nova cidade. Ao mesmo tempo em que a claridade lhe agrada, o calor que faz o rosto gotejar de suor parece lhe impor uma fadiga. “Para eu ficar um baiano completo, só falta criar a barriga”, ironiza o esguio Claude, que junto com o sócio é crítico da obesidade que considera dominante nos brasileiros.
“As pessoas comem mal, muita fritura, muita cerveja, muita carne”, emenda Artur, inconformado com o fato de os funcionários do restaurante não prestigiarem os legumes e verduras que ele prepara, como cenoura, nabo, abobrinha, maxixe e quiabo. “No máximo, comem batatas”, resmunga.
Como último desabafo, manifesto antiburocracia, Artur conta a saga do seu conjunto de porcelana encomendado especialmente para o restaurante. Comprou as peças de louça na França, em um famoso antiquário por 3.350 euros. O resultado é que os pratos, as travessas, as bandejas, a sua seleção de requinte para um jantar está retida há quase três meses no Porto de Santos.
Artur já pagou mais de R$ 16 mil em tarifas alfandegárias, honorários de advogados, tudo o que pôde fazer para liberar as peças de louça, mas até hoje não tem sequer previsão de quando vai poder colocar o material de primeira nas mesas dos clientes. “Isso é inadmissível, inadmissível”, lamenta, balançando a cabeça. Vale o recado para os burocratas de plantão: deixem o homem cozinhar.

Nascimento, cozinheiro oficial da Seleção Brasileira, está de volta à Bahia
O chef Artur Silva Nascimento, um dos cozinheiros oficiais da Seleção Brasileira de Futebol, precisou viajar o mundo todo para conhecer, aqui na Bahia, como é enfadonho o jogo retrancado da burocracia. Para realizar o sonho de abrir um restaurante de comida franco-marroquina, um oásis gastronômico em zona não tão valorizada do Abaeté, ele enfrentou a marcação cerrada do que chama de “sete meses de pendenga com a Sucom”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


fonte: jornal correio da bahia de 25 de março de 2007 por Pablo Reis-preis@correiodabahia.com.br